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II - O Meu Olhar
O meu olhar é nítido como um girassol. Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda, E de, vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se, ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer, Porque o vejo. Mas não penso nele Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos) Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, Mas porque a amo, e amo-a por isso, Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe por que ama, nem o que é amar ... Amar é a eterna inocência, E a única inocência não pensar...
Alberto Caeiro
Escrito por sandramilk às 18h30
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IX - Sou um Guardador de Rebanhos
Sou um guardador de rebanhos. O rebanho é os meus pensamentos E os meus pensamentos são todos sensações. Penso com os olhos e com os ouvidos E com as mãos e os pés E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor Me sinto triste de gozá-lo tanto. E me deito ao comprido na erva, E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade, Sei a verdade e sou feliz.
Alberto Caeiro
Escrito por sandramilk às 18h29
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Sou Eu
Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo, Espécie de acessório ou sobressalente próprio, Arredores irregulares da minha emoção sincera, Sou eu aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou. Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma. Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente, Como de um sonho formado sobre realidades mistas, De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico, Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua, Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda, De haver melhor em mim do que eu.
Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa, Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores, De haver falhado tudo como tropeçar no capacho, De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas, De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.
Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica, Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar, De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo — A impressão de pão com manteiga e brinquedos De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina, De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela, Num ver chover com som lá fora E não as lágrimas mortas de custar a engolir.
Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado, O emissário sem carta nem credenciais, O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro, A quem tinem as campainhas da cabeça Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.
Sou eu mesmo, a charada sincopada Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Sou eu mesmo, que remédio! ...
Álvaro de Campos
Escrito por sandramilk às 18h27
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Não sei quantas almas tenho
Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma. Quem vê é só o que vê, Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo, Torno-me eles e não eu. Cada meu sonho ou desejo É do que nasce e não meu. Sou minha própria paisagem; Assisto à minha passagem, Diverso, móbil e só, Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo Como páginas, meu ser. O que sogue não prevendo, O que passou a esquecer. Noto à margem do que li O que julguei que senti. Releio e digo : "Fui eu ?" Deus sabe, porque o escreveu.
Fernando Pessoa
Escrito por sandramilk às 18h25
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Aninha e suas pedras
Não te deixes destruir... Ajuntando novas pedras e construindo novos poemas. Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça. Faz de tua vida mesquinha um poema. E viverás no coração dos jovens e na memória das gerações que hão de vir. Esta fonte é para uso de todos os sedentos. Toma a tua parte. Vem a estas páginas e não entraves seu uso aos que têm sede.
Cora Coralina (Outubro, 1981)
Escrito por sandramilk às 18h14
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Apontamentos
"Houve o tempo do sonho. No escuro das noites, todos sonharam palavras. Houve o tempo do acordar. Na luz das manhãs, todos acordaram palavras. Depois veio a coragem de presentear. Em cartas lacradas viajaram secretas palavras".
Bartolomeu Campos Queirós
Escrito por sandramilk às 18h03
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Bartolomeu Campos de Queirós
Algum dia dividiremos a liberdade em fatias e nos amaremos - sem fome - em absurda alvorada
Escrito por sandramilk às 18h01
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Casa de amigo
Na casa do amigo os móveis flutuam a um palmo do chão.
O ar é mais leve: em cada recanto os pássaros tecem.
Na casa do amigo todas as confidências são permitidas.
Todas as palavras são entendidas tão facilmente, que é como água falando com água.
Na casa do amigo o coração se alimenta.
Roseana Murray
Escrito por sandramilk às 17h52
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Desejo
Quero asas de borboleta azul para que eu encontre o caminho do vento o caminho da noite a janela do tempo o caminho de mim.
Roseana Murray
Escrito por sandramilk às 17h50
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Faltou-me você
Faltou-me você Faltou-me o ár
Escrito por sandramilk às 05h52
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Amigo
que um amigo se reconheça sempre na face de outro amigo e nesse espelho descanse seus olhos e derrame sua alma como crina de um cavalo levemente pousada no vento
Roseana Murray
Escrito por sandramilk às 11h50
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amor bastante
AMOR BASTANTE quando eu vi você tive uma idéia brilhante foi como se eu olhasse de dentro de um diamante e meu olho ganhasse mil faces num só instante
basta um instante e você tem amor bastante
Paulo Leminski
Escrito por sandramilk às 11h46
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